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Parasitismo recluso

      Eu sempre fui daquele tipo que achava mais fácil copiar as coisas dos outros do que fazer as minhas. Na verdade, não sei se era por causa do ambiente externo, fator genético, influência astrológica, da minha personalidade ou da falta dela. No jardim de infância eu sempre copiava o desenho do meu amigo, acho que eu tinha medo de mostrar o meu; e também se alguém não gostasse eu dizia com indescritível indiferença: “copiei do Fulano”. Eu me sentia bem com esse roubo, com esse furto. Mesmo que fosse apenas de idéias, de pensamentos, de expressões… Eu me sentia seguro. Algumas vezes também já cheguei a tomar posse de materiais, de objetos: um lápis, uma borracha, ou o que estivesse ao alcance, mas parecia que nada me saciava nessa busca pelo outro, pelo alheio.
      Cresci, mas na minha adolescência nada foi diferente do que na minha infância. Meu vampirismo sugava os outros até a ultima gota de originalidade. Fazia questão de me espelhar nas roupas, namoradas, gírias… TUDO. Isso me deixa bem, me sentia confiante. Essa certeza do resultado da minha forma de agir ainda não tinha mudado, era perfeita.
      E agora… Agora estou aqui, fechado, amarrado, sedento. Tirei vidas. Não consegui me conter tendo apenas algumas coisas iguais. Eu queria mais. Mais que o corpo. Mais que vísceras e mais que a essência. Queria o inteiro, o indivisível, o invisível, o intangível e o infinito. Punem-me por vontades, me julgam louco; eu copio passados e começo a fundir realidades. Dizem que sou um perigo por mimetizar o antigo e sintetizar em novas fórmulas. Eles têm medo de mim. Eu, eu sou o próprio ensinamento que tudo que é criado não passa de uma cópia reformulada, transtornada pela mente insana que cada indivíduo constrói plagiando coisas diferentes.
      Cansei já dessa vida. Acho que vou dar uma volta. Aliás, é só eu copiar a liberdade, o ar fresco e o céu azul.

Autoria de: Janson Salvatori

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