Arquivo da tag: conto

Desabafo I

aphyx-chuva

Tudo começou no dia em que fui demitido. Era um dia frio e chovia muito. Eu, que estava sem guarda chuva, esperava a chuva passar. Esperei, esperei… e nada…

Foram duas horas de inquietação e vontade de morrer, mas respirei fundo e decidi erguer a cabeça. Desafiei a todos: Deus, natureza e família. Ninguém acreditava em mim. Parecia que o mundo ia acabar. Meus parentes já não me aceitavam em casa, minha mulher disse que só voltava comigo quando eu arranjasse um emprego decente e meus amigos… Não quero falar deles agora, mas garanto que agora devem estar rindo de mim e da minha miséria. Desgraçados! Tomara que todos morram! Que merda! Nem isso eu posso pedir. Aqueles retardados foram outro dia experimentar umas drogas aí, e no fim, bom; você já sabe. Morreram todos, e os que não morreram tão ou no manicômio, ou em clínica de reabilitação, eu acho. Não sei. Bom, isso não interessa. Quero falar das coisas boas. Ai que merda, outra vez tenho que falar essa palavra pra soltar minhas emoções. Agora nem sei onde eu tava. Acho que eu tava falando de como meus conhecidos não acreditavam em mim, é… Acho que é isso mesmo. Enfim, o dia acabou e resolvi largar aquele copo de cachaça. Cachaça não, negócio era fino, era vodka. Aquela vodka que eu comprei no mercado. O cara me garantiu que era boa, garrafa de vidro e tudo mais. Gastei 4 reais. Foram os últimos 4 reais que tinham me sobrado do meu último salário. Uma pena porque a porra da vodka se esgotou em menos de 2 dias. Este era o último suspiro de alguém que precisava desabafar. To pensando em me suicidar, mas não tenho coragem. Sempre fui cagão, e acho que vou continuar sendo. Viver nesse país é bom pra caralho, mas pra mim não, pra mim não é nada bom. Quando tento me estabilizar em um emprego, fico no máximo duas ou três semanas, o pior é que quando sou demitido é por justa causa: insônia, alcoolismo, vagabundagem. Ah, fugi de novo do tema, aliás, sempre fujo; é uma opção minha. Vou tentar terminar esse papo furado e acabar de logo com essa desgraça.

Autoria de: Naldo Tavares

Deixe um comentário

Arquivado em Contos

Parasitismo recluso

      Eu sempre fui daquele tipo que achava mais fácil copiar as coisas dos outros do que fazer as minhas. Na verdade, não sei se era por causa do ambiente externo, fator genético, influência astrológica, da minha personalidade ou da falta dela. No jardim de infância eu sempre copiava o desenho do meu amigo, acho que eu tinha medo de mostrar o meu; e também se alguém não gostasse eu dizia com indescritível indiferença: “copiei do Fulano”. Eu me sentia bem com esse roubo, com esse furto. Mesmo que fosse apenas de idéias, de pensamentos, de expressões… Eu me sentia seguro. Algumas vezes também já cheguei a tomar posse de materiais, de objetos: um lápis, uma borracha, ou o que estivesse ao alcance, mas parecia que nada me saciava nessa busca pelo outro, pelo alheio.
      Cresci, mas na minha adolescência nada foi diferente do que na minha infância. Meu vampirismo sugava os outros até a ultima gota de originalidade. Fazia questão de me espelhar nas roupas, namoradas, gírias… TUDO. Isso me deixa bem, me sentia confiante. Essa certeza do resultado da minha forma de agir ainda não tinha mudado, era perfeita.
      E agora… Agora estou aqui, fechado, amarrado, sedento. Tirei vidas. Não consegui me conter tendo apenas algumas coisas iguais. Eu queria mais. Mais que o corpo. Mais que vísceras e mais que a essência. Queria o inteiro, o indivisível, o invisível, o intangível e o infinito. Punem-me por vontades, me julgam louco; eu copio passados e começo a fundir realidades. Dizem que sou um perigo por mimetizar o antigo e sintetizar em novas fórmulas. Eles têm medo de mim. Eu, eu sou o próprio ensinamento que tudo que é criado não passa de uma cópia reformulada, transtornada pela mente insana que cada indivíduo constrói plagiando coisas diferentes.
      Cansei já dessa vida. Acho que vou dar uma volta. Aliás, é só eu copiar a liberdade, o ar fresco e o céu azul.

Autoria de: Janson Salvatori

2 Comentários

Arquivado em Contos

Quarta-feira

pooonte1

Quarta-feira. Era dia de jogo e o Coringão ia joga. Botei na Band. Não coloquei na Globo porque odeio as merdas que o Galvão fala. Cerveja na mesinha e o sofá era só meu.A partida começa e de cara, no começo do jogo, me marcam um penalti contra o Timão. Puta que o pariu! Não foi porra!Lá foi aquele viadinho daquele atacante bater. Gol. Fiquei emputecido. Logo depois teve impedimento no ataque do alvinegro. Puta merda…. Tão de sacanagem com a gente ,cara! Soltava palavrões a toda hora. E minha mulher me olhava com aquela cara que parecia o satanás. Ela ia naquelas igrejas onde aqueles pastores enchiam a cabeça dela de merda. Isso me deixava mais puto ainda. 38 do primeiro tempo. O desgraçado do juiz marca uma falta na entrada da área. Gol dos caras. Aí não deu. Taquei o copo de cerveja na parede. Minha mulher veio até a sala e falou que eu era um louco, que eu era um viciado no Timão e que aquilo me fazia mal. Aí não! Não admito isso. Falar mal do Corinthians? Na minha casa?Nunca! Ela ainda falou que aquilo tudo era coisa do capeta e que eu tava alterado, que eu parecia um drogado. Não me agüentei. Empurrei a vadia no sofá e aproveitei que o intervalo pra compra mais “bera”. Uns dias antes eu tinha discutido com ela e acabei por dar uma bofetada no braço da Cleusa. Quando voltei pra casa ela não tava mais. E quando olho pra TV…… FILHA DA PUTA! Expulsaram o Dentinho caralho! Filho da puta!!!! Tinha mais aquela puta que não aparecia e minha cabeça parecia explodir! Pra me foder de vez a cerva tava quente e eu não tava me agüentando. Rezei pra todos os santos e prometi que se o Todo Poderoso virasse o jogo eu voltava a freqüenta a igreja. Foi aí que o Herrera foi lá e mostrou porque que queria ser contratado. O lazarento não tinha feito nada, mas no segundo tempo ele voltou que nem um loco mano. Tava mostrando raça e o gol parecia que ia acontece. Só que aí, numa das entradas dele o juizão foi lá e deu o segundo amarelo pra nós. Não podia fica assim, o Coringão sem atacante e faltando 30 minutos pra acabar o jogo. A mulher apareceu.Rezei de novo e mais nada. É… Parecia que a gente ia perde mesmo. Cleusa já me olhava com uma cara daquelas de quem acha que ta com a razão.

O jogo acabou e eu desliguei a tv puto da vida.Todo aquele barulho na minha cabeça e a puta da minha esposa diz –Eu não disse que isso não presta?.Aah não, meu!Explodi no mesmo segundo e meti um no meio da cara dela!Como que fala assim na minha casa?Eu bufava de raiva e via ela se levantar e pegar uma garrafa de cerveja e se aproximar.Segurei os seus gordos  braços,a joguei no chão e sente  a mão nela até não resistir mais.Como que me expulsam o dentinho no começo do jogo?Juiz filho da puta!E aquele rosto ensangüentando sendo amaciado pelos meus pulsos surgiram na minha frente como se tudo estivesse sendo focalizado.Meu coração começou a bater mais forte do que na final da ultima libertadores que disputamos.Ela não tava mais respirando,meu.Me fodi.Fiz a maior cagada da minha vida no dia mais cagado dela.O barulho da minha cabeça foi tomada por um silêncio ensurdecedor.Eu tinha que dar um fim nisso.

Juntei todas as camisetas do Corinthians da minha coleção,coloquei no meio da sala e taquei fogo.Deitei do lado da minha esposa e esperei o fogo tomar conta da casa, o que não ia demorar muito,ja que a gente morava num 60m².

Parecia um daqueles rituais satânicos que a minha mulher tanto falava.Só faltava a galinha preta ,pipoca e cachaça.O calor aumentava e é  era difícil respirar . O fogo já tava a menos de 2 metros de mim ja ,tava começando a arder.A não meu.Já chega uma cagada no dia.Levantei,consegui ainda pegar uma cachaça no armário e tomei um onibus.Cheguei na beira do rio São Jorge,sentei,bebi,chorei e dormi.Por que tudo isso?Porque aqui não tem vez,mano.É tudo maloqueiro sofredor.

Autoria de: Colferico

1 comentário

Arquivado em Contos

Pastelelo flustado

pastel2

Hoje me pergunto o que eu seria se não fosse um vendedor de pastel. É uma vida realmente dura. Tenho que acordar cedo, preparar a massa, colocar tudo na minha Kombi, e ir pra feira e todo dia, de segunda a segunda, tenho que estar lá pra poder sustentar meus 11 filhos. É, sabe como é né. Nunca tive muito dinheiro pra fazer nada divertido, então a minha única diversão é a minha esposa, se é que me entendem. Voltando ao que estava falando: ninguém me respeitava por causa do meu sotaque pois eu falava “Aqui tem pastel de quesso, calne, flango e flango catupilly” e até hoje é assim. Vocês devem estar se perguntando: mas como que eu virei pasteleiro? Antes disso tenho que contar como que vim parar nesse país.
Quando eu tinha 5 anos fui espancado e estrangulado por um monte de ocidentais que me mandaram em um container com os meus irmãos e mais uma penca de gente. Todo mundo espremido. Era mais ou menos umas 30 pessoas por metro quadrado. Ficamos 25 dias confinados naquele container. Os filhos da puta jogavam milho cozido pra gente comer todo dia, mas era a lei da selva: come(sobrevive) quem for mais rápido. Por causa da minha idade sempre ficava por ultimo, mas meus irmãos sempre conseguiam alguma coisa para mim e no fim não passava tanta fome assim. Passados os 25 dias, chegamos no Brasil. Foi assim que cheguei nesse país.
Bom, agora posso contar como virei esse pasteleiro frustrado. Depois de chegar, fomos mandados para uma fábrica de brinquedos onde nós faziamos a montagem final do produto. Era um regime de 20 horas por dia e se alguem não fizesse o negócio direito ficavamos todos sem comida pelo resto da semana. Foi assim por 10 anos. Então a fábrica faliu e os donos nos “libertaram”, ou seja, nos jogaram no meio da cidade de São Paulo. Imagine… Sem dinheiro, sem saber falar a lingua e com 15 anos. A única coisa que me restava era mendigar pelas ruas. Então, mendiguei, mendiguei, mendiguei, e aprendi um pouco a falar. E cheguei em um lugar chamado ” LIBERDADE” onde eu achei outros conterraneos. E um deles me acolheu e me fez de empregado em uma pastelaria, digo empregado porque ele me dava um dinheirinho e me deixava ficar na casa dele. Sempre guardava esse dinheirinho. Morei com ele até eu arranjar uma mulher. Nunca imaginei, mas me apaixonei por uma ocidental. Era secretária e muito simpática. Então fui morar no apartamento dela. Quando completei 30 anos já tinha 8 filhos e percebi que estava na hora de abrir um negócio próprio. Então peguei o dinheiro guardado e comprei uma Kombi e uma barraca dessas de montar. Passei a vender pastéis, assim virei um pasteleiro. Hoje, minha vida continua sofrida e eu tenho que alimentar os meus 11 filhos que eu nem sei se são meus. O vidinha miserável.

Autoria de: Ku Xai Chang

2 Comentários

Arquivado em Contos