Desabafo II

O que eu quero dizer é que tudo começou depois de eu ter sido demitido e todos me abandonarem. Até aí tudo bem, consegui um emprego de ajudante de operador de fotocopiadora, o famoso xérox. O cara que opera lá me disse que se eu continuasse assim conseguiria o emprego dele, ele falou que era uma bosta e que ninguém queria. Pensei, pra mim vai ser fácil, já que ele vai desistir logo. Mas, como sempre eu fiz uma cagada. Estraguei tudo. Um dia eu tava com sono, e sem querer eu derramei um pouco de café na máquina e bum! Tudo parou de funcionar. O cara falou pra mim rala peito. Foi o que eu fiz, nunca mais ia ser ajudante daquele Zé ninguém. Foi aí, no dia que eu perdi o outro emprego que eu trombei à noite com um amigo de um amigo meu: João Duro. Duro, era forte, alto, tinha cabelos lisos e compridos, fedia a perfume caro, vestia um terno branco (acho que era de marca porque era bem bonito), sapatos novos, óculos escuros. Ele tirou os óculos, olhou pra mim e me perguntou se eu queria ganhar dinheiro fácil, e eu, desesperado, disse que sim, faria de tudo por umas verdinhas. Quando ele falou que eu poderia ganhar mais de 2 conto por semana, isso mesmo, 2 conto por semana, ah meu irmão falei pra ele que topava tudo. Primeiro perguntei se era trafico de drogas. Sabe como é que é né, sou foragido, daí mexer com drogas ia ser a gota d’água. O cara me olhou com um olhar sacana e disse que não. Falei se era contrabando, que eu conhecia uns caras quentes e tinha contato e tal. Ele me falou que não, então perguntei o que era e ele disse que se eu fosse macho aceitava. Falei pra ele, cara macho eu sou! Falei com convicção, e ele estava decidido a me contratar. Falou pra me encontrar na esquina da Avenida Iguaçu com a Lamenha Lins, às 22 horas. Chegando lá ele me explicou tudo e eu fiquei emputecido. O cara queria que eu comesse cu de viado. Ele falou que me pagava bem e que se a clientela gostasse, eu ganhava um bônus. Falei pô, se for pra ser ativo eu topo. Passivo não ein. Ele falou que tudo bem e eu fiz o serviço. Foi na base do cuspe porque não tinha nada que alisasse. No começo foi difícil faze o junior levantar, mas depois de um tempo me acostumei. Tirei um conto e meio naquela noite. Vou dizer que fiquei feliz e com medo, mas queria que tudo se explodisse. Consegui dinheiro e gastei metade em cachaça. Fui falar com o João, e ele me deu o bônus, bônus nada. Chegando lá, descobri que era gay. Acontece que o bônus era ele, e acabei aceitando, mas já fui cobrando caro pra ele. Ele me pagou, peguei minhas coisas e jurei que nunca mais iria fazer isso. Vivi 4 meses com o dinheiro que havia conseguido, mas depois precisava de mais. Não conseguia emprego e a vida tava dura. Recorri ao Duro, e ele falou que não queria mais os meus serviços. Chorei um pouco e ele me aceitou. Só que falou que eu teria que trabalhar pelo menos uma semana sem largar. Agora, todo mundo já sabe como começou essa vida bandida e como fui sendo aproveitado nessa vida. Era um desabafo, precisava soltar. Hoje, vivo pelas ruas. Não durmo, não tenho mais família e muito menos amigos. A cachaça é minha companheira, e espero que Deus me perdoe pelas bobeiras que fiz, poderia estar envolvido com drogas, contrabando, mas não. Nunca mais vou ser o mesmo. Perdi minha dignidade. O pior é que não acaba por aí…

Autoria de: Naldo Tavares

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1 comentário

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Uma resposta para “Desabafo II

  1. Antonoly

    É, a vida não está fácil para ninguém mesmo!!!

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