Arquivo do mês: março 2009

Desabafo II

O que eu quero dizer é que tudo começou depois de eu ter sido demitido e todos me abandonarem. Até aí tudo bem, consegui um emprego de ajudante de operador de fotocopiadora, o famoso xérox. O cara que opera lá me disse que se eu continuasse assim conseguiria o emprego dele, ele falou que era uma bosta e que ninguém queria. Pensei, pra mim vai ser fácil, já que ele vai desistir logo. Mas, como sempre eu fiz uma cagada. Estraguei tudo. Um dia eu tava com sono, e sem querer eu derramei um pouco de café na máquina e bum! Tudo parou de funcionar. O cara falou pra mim rala peito. Foi o que eu fiz, nunca mais ia ser ajudante daquele Zé ninguém. Foi aí, no dia que eu perdi o outro emprego que eu trombei à noite com um amigo de um amigo meu: João Duro. Duro, era forte, alto, tinha cabelos lisos e compridos, fedia a perfume caro, vestia um terno branco (acho que era de marca porque era bem bonito), sapatos novos, óculos escuros. Ele tirou os óculos, olhou pra mim e me perguntou se eu queria ganhar dinheiro fácil, e eu, desesperado, disse que sim, faria de tudo por umas verdinhas. Quando ele falou que eu poderia ganhar mais de 2 conto por semana, isso mesmo, 2 conto por semana, ah meu irmão falei pra ele que topava tudo. Primeiro perguntei se era trafico de drogas. Sabe como é que é né, sou foragido, daí mexer com drogas ia ser a gota d’água. O cara me olhou com um olhar sacana e disse que não. Falei se era contrabando, que eu conhecia uns caras quentes e tinha contato e tal. Ele me falou que não, então perguntei o que era e ele disse que se eu fosse macho aceitava. Falei pra ele, cara macho eu sou! Falei com convicção, e ele estava decidido a me contratar. Falou pra me encontrar na esquina da Avenida Iguaçu com a Lamenha Lins, às 22 horas. Chegando lá ele me explicou tudo e eu fiquei emputecido. O cara queria que eu comesse cu de viado. Ele falou que me pagava bem e que se a clientela gostasse, eu ganhava um bônus. Falei pô, se for pra ser ativo eu topo. Passivo não ein. Ele falou que tudo bem e eu fiz o serviço. Foi na base do cuspe porque não tinha nada que alisasse. No começo foi difícil faze o junior levantar, mas depois de um tempo me acostumei. Tirei um conto e meio naquela noite. Vou dizer que fiquei feliz e com medo, mas queria que tudo se explodisse. Consegui dinheiro e gastei metade em cachaça. Fui falar com o João, e ele me deu o bônus, bônus nada. Chegando lá, descobri que era gay. Acontece que o bônus era ele, e acabei aceitando, mas já fui cobrando caro pra ele. Ele me pagou, peguei minhas coisas e jurei que nunca mais iria fazer isso. Vivi 4 meses com o dinheiro que havia conseguido, mas depois precisava de mais. Não conseguia emprego e a vida tava dura. Recorri ao Duro, e ele falou que não queria mais os meus serviços. Chorei um pouco e ele me aceitou. Só que falou que eu teria que trabalhar pelo menos uma semana sem largar. Agora, todo mundo já sabe como começou essa vida bandida e como fui sendo aproveitado nessa vida. Era um desabafo, precisava soltar. Hoje, vivo pelas ruas. Não durmo, não tenho mais família e muito menos amigos. A cachaça é minha companheira, e espero que Deus me perdoe pelas bobeiras que fiz, poderia estar envolvido com drogas, contrabando, mas não. Nunca mais vou ser o mesmo. Perdi minha dignidade. O pior é que não acaba por aí…

Autoria de: Naldo Tavares

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Desabafo I

aphyx-chuva

Tudo começou no dia em que fui demitido. Era um dia frio e chovia muito. Eu, que estava sem guarda chuva, esperava a chuva passar. Esperei, esperei… e nada…

Foram duas horas de inquietação e vontade de morrer, mas respirei fundo e decidi erguer a cabeça. Desafiei a todos: Deus, natureza e família. Ninguém acreditava em mim. Parecia que o mundo ia acabar. Meus parentes já não me aceitavam em casa, minha mulher disse que só voltava comigo quando eu arranjasse um emprego decente e meus amigos… Não quero falar deles agora, mas garanto que agora devem estar rindo de mim e da minha miséria. Desgraçados! Tomara que todos morram! Que merda! Nem isso eu posso pedir. Aqueles retardados foram outro dia experimentar umas drogas aí, e no fim, bom; você já sabe. Morreram todos, e os que não morreram tão ou no manicômio, ou em clínica de reabilitação, eu acho. Não sei. Bom, isso não interessa. Quero falar das coisas boas. Ai que merda, outra vez tenho que falar essa palavra pra soltar minhas emoções. Agora nem sei onde eu tava. Acho que eu tava falando de como meus conhecidos não acreditavam em mim, é… Acho que é isso mesmo. Enfim, o dia acabou e resolvi largar aquele copo de cachaça. Cachaça não, negócio era fino, era vodka. Aquela vodka que eu comprei no mercado. O cara me garantiu que era boa, garrafa de vidro e tudo mais. Gastei 4 reais. Foram os últimos 4 reais que tinham me sobrado do meu último salário. Uma pena porque a porra da vodka se esgotou em menos de 2 dias. Este era o último suspiro de alguém que precisava desabafar. To pensando em me suicidar, mas não tenho coragem. Sempre fui cagão, e acho que vou continuar sendo. Viver nesse país é bom pra caralho, mas pra mim não, pra mim não é nada bom. Quando tento me estabilizar em um emprego, fico no máximo duas ou três semanas, o pior é que quando sou demitido é por justa causa: insônia, alcoolismo, vagabundagem. Ah, fugi de novo do tema, aliás, sempre fujo; é uma opção minha. Vou tentar terminar esse papo furado e acabar de logo com essa desgraça.

Autoria de: Naldo Tavares

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